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Todo livro didático ou similar deve estar organizado de modo a não tratar o aluno como um mero espectador que ouve e anota, mas sim como sujeito de sua aprendizagem. Para a realização de um processo eficaz, os aprendices deveriam refletir, organizar, agir em grupo, compartilhar conhecimentos, opinar principalmente quando surgem conhecimentos lingüísticos e socioculturais diferentes dos que eles já trazem, realizar tarefas e buscar informação fora da sala de aula, sem que o professor esteja presente, tomar decisões sozinhos ou em grupo, etc.
Não podemos nos esquecer que o aluno traz consigo uma carga sociocultural a ser compartilhada e está assimilando não só uma língua estrangeira, mas também um novo universo sociocultural com o qual deverá interagir. É, portanto, um cidadão que será chamado a opiniar, a avaliar sua sociedade e cultura em comparação com a sociocultura do outro, cidadão que será chamado a entender o outro, a tolerar o outro, a não trocar sua cultura por outra, mas a participar de um processo de diálogo com a nova cultura, um processo de criação de uma nova consciência mais rica e crítica. Lembro-me que no Brasil, após um longo trabalho de pesquisa com os alunos sobre os países da América Latina, um deles comentou que a Venezuela era antes um país que ele simplismente ignorava, mas depois do trabalho passou a admirar muito. A motivação durante as aulas aumentou e o gosto pelo estudo do espanhol também. Muitos observaram que o Brasil é totalmente fechado para a cultura latino-americana, que o brasileiro só conhece estereótipos e que se sentiram muito surpreendidos com a riqueza cultural de nossos vizinhos.
Algo grave que tenho observado é que o componente sociocultural fica isolado e sem desenvolvimento ou continuidade em muitos livros didáticos. Na verdade ele deve ser tratado como parte essencial e pode aparecer em todas as atividades, nos diálogos, nos exercícios, nas fotos, nas entrevistas e até na sistematização gramatical. O sociocultural deve ser trabalhado em harmonia e simultaneidade com todos os demais conteúdos. O tratamento dado ao sociocultural precisa detectar estereótipos existentes e trabalhá-los para que se produza um novo olhar sobre o país em foco e a fim de que os alunos renovem suas opiniões.
Não podemos determinar com absoluto rigor todas as situações, ambientes, desafios, tarefas, tipos de pessoas e que condições nossos alunos terão que enfrentar ao passear, morar e/ou trabalhar em um país estrangeiro. No entanto, na elaboração do material é importante pensar em quais temas, situações, problemas, tarefas, atividades, universo lexical, morfo-sintático e fonético-fonológico, complexidade de textos, dados socioculturais e pragmáticos tornarão o aluno um usuário competente do idioma.
Penso que o aluno deverá ser submetido a um léxico amplo e variado e às sutilezas do idioma fundamentais à comunicação e à convivência no país estrangeiro. Devem ser privilegiados os modismos, os popularismos, a polissemia, a metaforização, os jogos de palavras, etc. É importante dar atenção especial para as realizações fonéticas próprias da fala juvenil, das relações informais e da conversa do dia-a-dia, dos humoristas e das variantes regionais. Isto não significa que o professor não possa revisar a base fonético-fonológica do idioma quando for necessário. As relações de implicação, pressuposição, efeitos de estilo como ironia e humor, usos dos recursos lingüísticos com fins estilísticos, etc. são de vital importância.
O que vem me preocupando muito ultimamente é a organização interna dos tópicos ou unidades didáticas dentro dos livros e similares. Muitas vezes falta coerência, sequência e objetivos claros. Gostaria de citar o feliz exemplo de uma unidade didática do livro American Inside Out / nível intermediário de Sue Kay e Vaughan Jones para ensino de língua inglesa.
O título da unidade é Relax. No início é apresentada a foto de uma mulher visivelmente abalada lendo um livro chamado Calm. As primeiras preguntas são: O que você acha que a mulher está sentindo? O que você acha que ela está buscando no livro? Estas perguntas levam o aluno a opinar oralmente.
(Comentário: Ótima introdução ao tema. A foto foi bem escolhida pois a expressão facial da mulher é instigante e chama muito a atenção dos alunos. As perguntas fazem com que eles tenham que interpretar a foto. Não há uma única resposta possível. Alguns dizem que ela está estressada e busca soluções para os seus problemas, outros opinam que ela está preocupada com uma prova da Universidade ou com problemas conjugais e o livro é de psicologia).
As próximas perguntas são pessoais: pensem em um dia típico de sua vida. Quais são suas atividades de estudo, trabalho e lazer? Quanto tempo você gasta trabalhando, estudando e relaxando?
(Comentário: As respostas normalmente mostram que os alunos têm pouco tempo para relaxar em virtude do acúmulo de tarefas o que é comum no mundo moderno. Este fato os identifica com os personagens das fotos e auditivas que virão a seguir).
Em seguida a unidade traz parte do conteúdo do livro Calm. E diz o seguinte: De acordo com o Pequeno Livro da Calma (The little book of calm) uma pessoa relaxada gasta tempo sozinha, tira uma soneca durante o dia, faz caminhadas, flutua na água de piscina ou banheira, recebe massagens, etc. Há fotos de 4 pessoas que leram o livro e uma auditiva em que elas falam sobre seu cotidiano e sobre as recomendações do livro. Após escutarem o cd, os alunos devem responder às perguntas: vocês acham que eles gostaram do livro da calma? Quais das atividades citadas acima são mencionadas por eles?
(Comentário: Vejo ai um belo exemplo de integração de vários recursos como um trecho de um livro, fotos e material auditivo. As habilidades de leitura, compreensão auditiva, interpretação, e produção oral estão integradas em harmonia. As fotos foram novamente muito bem escolhidas. Uma delas apresenta uma mulher lavando um monte de louça com uma menina chorando em seus braços).
Em seguida é solicitado aos alunos que ouçam novamente os relatos das 4 pessoas e que selecionem as palavras que expressam a freqüência com a qual elas fazem as coisas. Destacadas as palavras, os alunos devem fazer perguntas a seus colegas usando nunca, regularmente, de vez em quando, uma vez por semana, raramente, uma vez por mês, etc. Depois há um exercício de formar frases com os advérbios de freqüência e uma sistematização mais profunda dos usos gramaticais e da posição do advérbio e expressões de tempo nas frases em inglês.
(Comentário: O tema gramatical é introduzido no momento adequado quando se trata das atividades cotidianas e por meio de uma auditiva os alunos observam os usos, depois praticam e por fim lhes é dada a sistematização).
Na página seguinte há um interessante texto. Susan fala de sua experiência ao ver-se numa filmagem de casamento. Ela percebe como é estressada ao ver seus gestos e atitudes no filme. Em seguida há perguntas de interpretação do texto. Há também um relaxante (jaja) teste para medir o grau de estresse. Exemplo: a) ( ) Você começa a se preocupar na sexta-feira com o trabalho que vai ter na próxima segunda?
( ) Você tem facilidade para esquecer o trabalho e relaxar no fim de semana?
(Comentário: Atividades criativas de acordo com o tema).
Por último, com base no teste de estresse e no texto de Susan, são apresentadas atividades orais e escritas para a prática do presente indicativo. Então vem uma sistematização gramatical e exercícios.
(Comentário: Seqüência coerente que une a interpretação, a análise, a prática e a sistematização gramatical de modo harmonioso).
De modo geral poderia dizer que essa unidade didática é toda interligada, sem cabos soltos, o que promove a participação efetiva do aluno como sujeito, analisando, interpretanto, falando, lendo, ouvindo, praticando e interagindo. O material selecionado é bem atraente para o aluno e não dá apertura para a dispersão.
Feitas essas reflexões, devo concluir que a elaboração de materiais didáticos requer tempo, pesquisa, criatividade e conhecimentos aprofundados de metodologia e história do ensino de línguas.
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